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domingo, 9 de novembro de 2014

Indicando: Os Intocáveis



Os Intocáveis é um filme francês de comédia dramática, escrito e realizado por Olivier Nakache e Éric Toledano, com François Cluzet e Omar Sy nos principais papéis. O filme aborda a relação de um multimilionário tetraplégico e do seu peculiar auxiliar de enfermagem, baseado no livro autobiográfico de Philippe Pozzo di Borgo, Le Second souffle. O filme assim como o livro são baseados em fatos reais. Foi o filme mais visto na França em 2011 e é o mais rentável filme francês da história. O dinheiro arrecadado com a venda dos direitos de autor da adaptação do livro ao cinema, cerca de US$ 650 mil, foi doado a uma associação de ajuda a deficientes físicos.

Sinopse

Philippe (François Cluzet), um refinado multimilionário tetraplégico francês, precisa de um auxiliar de enfermagem para o auxiliar nas suas atividades rotineiras. O contratado é Driss (Omar Sy), um senegalês radicado nos subúrbios de Paris, que acaba de cumprir uma pena de seis meses de prisão e que não tem qualquer formação para o cargo, porém Driss de uma forma um tanto "errada" faz Phillippe ter prazer pela vida novamente.

Comentário de um telespectador
Este filme francês vencedor de vários prêmios e baseado em fatos reais, é de fato um belíssimo Drama, que edifica e ainda é capaz de provocar deliciosas gargalhadas, mesmo que a maior parte do tempo seja pautado na construção de uma amizade improvável... que se transforma no ápice desta maravilhosa e delicada história. A Química dos protagonistas consiste no epicentro do imponente sucesso que fez este filme. Com uma trilha repleta de belíssimos arpejos pianísticos e diálogos inspirados que produzem espontaneamente plasticidade a beleza do confronto entre duas distintas culturas que se descobrem através da maestria de uma inspiradora relação. Um filme para se assistir com a alma e com o coração aberto. Um grande espetáculo de arte para qualquer público.

 
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             Dentro de uma perspectiva lógica, a relação entre os dois personagens principais do filme tinha tudo para não dar certo, sendo um o oposto do outro, no entanto, não foi o que ocorreu. Ao contrário da afirmação anteriormente feita, a exceção à regra acaba tornando a lógica uma cumplicidade entre Phillip e Driss, dentro de uma relação, a princípio, estritamente profissional, que foi constituindo uma amizade, cheia de cuidado, harmonia e companheirismo. 
             Phillip é um homem branco, maduro, de elevado nível econômico e é tetraplégico, enquanto Driss é um rapaz negro, pouca condição financeira, sem a mínima experiência para exercer o papel de cuidador, ao qual foi contratado por acaso, ou seja, são vivências completamente diferentes. Onde nunca se esperou que fossem estabelecidos vínculos, contra os paradigmas, um se fortalecia no outro diante da realidade, transformando essa história de limitações, e o que poderia ser um drama foi superação. Superação esta que não consiste em algo físico, mas que está para além do nosso campo de visão. É uma superação da forma que transpõe medos e perdas. 
             Em um determinado ponto do filme, percebe-se que Driss não trata Phillip visando sua deficiência, e percebemos isso no desenrolar da história. Nota-se que a tetraplegia passa a ser um fator secundário, e o que passa a ser relevante, também, é o choque dos dois mundos, onde a cultura é totalmente diferenciada e os valores sociais são preponderantemente descompensados. Há cenas que evidenciam exatamente esse papel, como a que o Driss esquece que o Phillip tem deficiência física e não fecha o sinto de segurança da cadeira de rodas, por exemplo. Ele não evidencia os limites do seu “patrão”, mostrando a ele, inclusive, novas maneiras de perceber a vida e as pessoas. Por esse motivo, foi contratado. Driss não trazia o sentimento de pena em sua relação de trabalho e, posteriormente, acabou tornando-se íntimo de Phillip. 
             Uma das coisas que se sobressai, também, durante o filme, é o fato de que, independente de status ou condição física, o ser humano nunca pode se achar ou se tornar uno e viver numa ilha onde sua sobrevivência dependesse tão e tão somente dele. Precisamos cuidar e sermos cuidados, afinal, sem esse cuidado, deixamos de ser seres humanos. Segundo Leonardo Boff, há algo que só os seres humanos são capazes de fazer, que é a capacidade de se emocionar, de se envolver, de afetar e ser afetado, e isso nos envolve às pessoas, por isso é tão importante que não invertamos os valores, e não esqueçamos do que somos capazes de fazer e proporcionar ao outro. 
             Vivemos em um mundo onde tudo tem seu preço, a humanização das situações é desprezada, visamos o que o outro é e esquecemos quem ele é, coisificamo-los. O fato de viver nesse contexto gera no ser humano uma frieza e incapacidade de enxergar o problema do outro como algo que seja importante e passível de nosso auxílio. Às vezes, o problema está dentro de nossa própria casa e isso nos torna incapaz de visualizar e perceber determinadas situações da maneira que são realmente. Fazendo um paralelo com o filme, não é o poder do dinheiro que contextualiza a história, e sim a relação totalmente humanizada que existe entre os dois. O homem ativo no mundo é o único capaz de cuidar no sentido integral, natural e consciente, une desta forma, os componentes racionais e sensíveis ao mesmo tempo. 
             Phillip e Driss mostraram um ao outro que, mesmo com suas diferenças tão notáveis, era possível haver uma troca, que mesmo dentro da realidade de Phillip, possuidor de uma situação economicamente privilegiada, não o impediu de aprender, enxergar e sentir a leveza e a simplicidade que não fazia parte de sua vida até então. Assim como Driss pôde aprender sobre arte, por exemplo, nos mostrou que isso não está restrito apenas a quem tem dinheiro ou status, mas que é uma fonte de conhecimento, prazer e sentido que se dá, seja em um quadro cheio de informações ou em uma mancha no meio dele. O sentido que se dá as coisas e as experiências é o que se sobressai e importa, de fato, numa relação com o outro e com a vida. Nessa perspectiva, Phillip foi estimulado por Driss a ter ânimo para reaprender a viver, ambos agregando experiências peculiares, mas igualmente sábias.              Borges e Waldow trazem a ideia de que existem diversas maneiras de cuidar, e estas maneiras possuem intensidades bem diferentes, porque vão de acordo com as situações e a forma com a qual se está envolvido. Se formos pegar o significado global de cuidado, este está relacionado a atenção, aplicação a alguma coisa, ao trabalho feito com muito cuidado. Percebe-se que Driss não seguia à risca o que extraímos do conceito, o que não quer dizer que ele não seguisse algum modelo de cuidado, o cuidado dele. Driss fazia com que Phillip se sentisse autônomo, fazendo muitas vezes com que o pensamento de limitação, que antes era tido como única verdade, fosse esquecido da forma penosa que se apresentava. É bastante visível isso, quando Driss chama uma massagista para trabalhar com as orelhas de Phillip, proporcionando prazer da maneira que ele podia sentir. 
             Summa apud Roselló, traz, segundo a visão de Watson, que o cuidar está mais voltado ao que se entende pela Enfermagem. Quando cuidamos de alguém, a integridade física é o que acreditamos ser ideal, mas no caso de Phillip, quando o corpo não responde mais aos comandos ou sente dores, o cuidado com o corpo é importante, mas, nem de longe, é tanto quanto a subjetividade do sujeito que precisa desse cuidado. Para a Enfermagem, a motivação fundamental de sua ação é cuidar de sujeitos em condição de vulnerabilidade e, por conseguinte, sofrimento. Envolve a saúde, enfermidade e conduta humana. Estes são três pontos que estão interligados. 
             A partir disso, percebemos no filme que, mesmo que o Driss não tivesse conhecimento sobre esse conceito, ou mesmo consciência do que estava fazendo, foi o que ele realizou. Cuidou do corpo, promovendo o conforto físico, do íntimo, quanto ao empoderamento do ser e ressignificação do corpo socialmente, e do cotidiano do Phillip, fazendo de sua vida, incontestavelmente mais feliz, proporcionando-lhe uma qualidade que não tinha antes dele aparecer. Ainda na mesma ideia do autor, é o cuidado que é valorizado pelo paciente e não necessariamente a cura. Isso se encaixa perfeitamente do filme, tendo em vista que não havia possibilidade de cura, apenas poderia ser feito algo que melhorasse a vida do Phillip, em função do aproveitamento do que a vida proporcionava para ele, mesmo com suas limitações. A forma de absorver o mundo e de significa-lo, foi a grande questão que a obra nos instigou a observar. “Isso significa que a tarefa de cuidar não é patrimônio exclusivo de uma determinada profissão, mas um dever de humanidade, isto é, de qualquer ser humano, pois demanda de sua própria natureza.” (SUMMA apud ROSELLÓ, 2009). 
             O autor traz, segundo a perspectiva do bioeticista Pellegrino, que há dois sentidos ainda para o cuidar, o primeiro trata pelo sentido da compaixão, na qual o cuidar é ter empatia pelo outro, pondo-se a sentir e passar as mesmas dores que o outro sente, enquanto que a segunda refere-se exatamente a forma que o Driss apresentou, que é ajudar uma outra pessoa a ser autônoma, ou seja, ajudar o outro a fazer o que ele não consegue ou pode fazer sozinho. Assim, o cuidador serve de ponte, oferecendo recursos para a transposição das barreiras impostas a quem possui necessidades especiais, em qualquer que seja o caso. 
             Essa discussão vai bem mais além, Roselló compartilha do mesmo pensamento que Verspieren, quando afirma que o cuidador precisa compreender que a discrição é fundamental, pois assim, proporciona uma ajuda que seja praticamente imperceptível aos olhos de quem a usufrui, perceba que, se alguém recebe uma ajuda nessas condições, vai ser bem mais improvável que ela se perceba como inferior, algo que ela não é. O que encontramos diariamente, é que a posição de quem precisa de ajuda é considerada humilhante para muitos. Estar na condição de quem precisa e não de quem oferta, traz em si, uma carga de sentidos que na nossa sociedade é vista como ruim. Então, a discrição é fundamental no papel de um cuidador, tomando uma postura que nem invada a privacidade do outro nem seja impessoal (SUMMA apud ROSELLÓ, 2009). 
             Trazendo à profissão de psicólogos, fugindo um pouquinho do filme, isso nos remete a função que precisamos desempenhar no processo de autonomia do ser humano, somos quem ajuda-o a superar aquilo que ele não consegue sozinho. Vamos no íntimo dele para extrair elementos que nos permitam desenvolver o nosso papel, levando em conta todos os elementos que foram apontados até então, como discrição, cuidado, integridade física e emocional, relação sujeito-ambiente, subjetividade, além de diversos outros fatores que envolvem o processo de cuidar desse outro, não tanto pelo sentido da compaixão, mas no segundo sentido que o Pellegrino aponta, que é de ser ponte para a autonomia, dando espaço para que as dificuldades do outro apareçam, mas sempre como algo que possa ser superado por ele e somente por ele, ainda que seja com a nossa ajuda. 
             Muitas vezes, as pessoas tentam se colocar no lugar de quem está sofrendo e tentar saber o que esse outro sente, mas o ponto de partida não deve ser esse, pois cada um tem sua história, sua dor, e quando se diz “só sabe quem passa”, é porque a maneira de subjetivar as experiências é pessoal, ainda que hajam no mesmo lugar duas pessoas fisicamente idênticas, que passem pelas mesmas situações e que possuam familiares e amigos, a forma de absorver tudo isso é única. Olhando para o outro e vendo suas fragilidades, potencializa-se aquilo que esteja sentindo na hora, e não ameniza. E é exatamente isso que vemos no filme, a tetraplegia foi minimizada, potencializando o sentimento de ultrapassar limites. Não ameniza o problema, mas se aprende a conviver com ele, e fazer do mesmo, uma fonte de superação. 
             Algumas frases de Antoine de Saint-Exupéry, em seu livro O Pequeno Príncipe nos faz refletir determinados aspectos: “Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos.”, ou seja, nem toda a estrutura que Phillip tinha, nem todo o seu dinheiro, poderiam gerar a emoção que Driss o proporcionou em toda a época que conviveu com ele, deixando marcas definitivas e únicas. Desencadeando um sentimento que é essencial para tornar as coisas especiais e significativas. 
             Outra frase também de Antoine de Saint-Exupéry que é cabível para explicar o que houve na relação entre Driss e Phillip, é a seguinte: “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.”, por mais que o tempo passe a responsabilidade das transformações ocorridas com ambos será sempre de tudo que foi plantado com o tempo, em que um foi fundamental na vida do outro gerando uma relação de independência, onde eles aprenderam a agir e lidar com tudo que os rodeavam. Mas ainda assim, a responsabilidade por essas mudanças, um vai atribuir ao outro. 
             O que podemos destacar aqui também, é que não era somente o Phillip que estava em posição vulnerável e que que precisava de ajuda por ser tetraplégico, mas o Driss também. Roselló aponta em sua obra que “todo ser humano é vulnerável, (...) mas essa vulnerabilidade pode ser potencial ou real.”. Embora Driss não tivesse alguma necessidade especial física, ele se encontra em uma realidade social muito ruim, adotado pelos tios, pobre, cheio de irmãos, um em especial tinha se envolvido com o que aparentou ser uma gangue, estava desempregado, a mãe o tinha expulsado de casa, além de outros fatores que levaram ele a uma nova situação, que foi de cuidar de uma outra pessoa e realizar algumas ações que ele considerava ser contra seus princípios, como ter que dar um banho completo no Phillip, por exemplo. 
             Veja que, mesmo com tantas dificuldades, Driss não evidenciou o que fazia-o sofrer naquele momento. Em cena alguma foi mostrado no filme ele maldizendo a si ou a situação em que se encontrava. Phillip ofereceu-lhe emprego, mas, mesmo que em troca de casa e salário, Driss não o tratou como se estivesse em uma situação melhor ou pior, ou somente profissional, mas sim de igualdade, e o ajudou da melhor maneira que pôde. Dessa forma, acabou um cuidando do outro. E as dificuldades de ambos foram dia a dia sendo superadas. 
             A relação entre Phillip e Driss externou para nós a experiência concreta de perceber o outro de forma empática, sendo os dois os protagonistas necessários para o processo de reinserção de uma pessoa com necessidades especiais às suas atividades normais e sociais. Um acolhendo o outro à sua maneira, suspendendo as dificuldades encontradas nas situações cotidianas, refazendo-as como próprias de cada um, e adaptadas ao contexto que se desenrolara. 
             As histórias dos dois personagens, totalmente opostas, se entrelaçaram em um convívio prioritariamente trabalhista, e que a partir da convivência dedicada entre ambos, resultou-se na mais eficaz e comprometida reciprocidade, sem seleção de comportamentos, de rigorosidade, de planos estratégicos, e compreensão teórica, mas a prova de que os desafios enfrentados pelos dois, cada um com o seu grau de dificuldade, foram irrelevantes para a concretização do processo inclusivo, e que a cumplicidade entre Phillip e Driss foi crucial para que a ajuda mutualística transformasse a vida dos dois, chegando à prática não só de inclusão, mas também de ressignificação dos sujeitos e dos “estilos” de vida cômodos que até então os dois estavam inseridos, Philip em sua pomposa e financeiramente favorecida vida, e Driss no seu estado despojado e socialmente marginalizado de se viver, mesclaram suas experiências e aceitaram as suas condições, não sendo, as limitações impostas pelas relações sociais dos dois, nem a tetraplegia, uma barreira que hierarquizasse o convívio promissor e verdadeiro compromisso recíproco de um para com o outro. 
             Phillip e Driss puderam lançar a nós uma perspectiva diferente de se trabalhar com pessoas portadoras de necessidades especiais, enfrentando as incompatibilidades e as problemáticas cotidianas como motivos para a prática constante da resiliência, do cuidado e da atenção, muito mais ao sujeito do que às dificuldades que ele enfrenta. 
             É preciso encarar o outro, independente de sua necessidade, e como causa prioritária, extrair aproveitamento das relações, resultando em um processo de aprendizagem e de contínuo aprimoramento das práticas de cuidado. Não encarar o outro como diferente, na consideração literal da palavra, levando-o ao encontro de novas rotinas e convivências, oportunizando-o a percepção de si mesmo e de sua utilidade, além de construir junto com o indivíduo uma nova proposta de vida, baseada na efetivação plena da existência em quanto se pode objetiva-la, e tê-la como bem maior para o sujeito e para os que com ele convivem, oferece-lhes a opção de juntos reformarem suas vidas, buscando sempre o seu melhoramento e a utilidade com a qual todos podem dedicar-se. 

REFERÊNCIAS 

Significado de Cumplicidade. Disponível em: < http://www.significados.com.br/cumplicidade/>. Acesso em: 20 de agosto de 2014. 
WALDOW, R.V; BORGES, F.R. Cuidar e humanizar: relações e significados. Acta paul. enferm. vol.24 no.3 São Paulo, 2011. 
BOFF, L. Saber Cuidar: Ética do Humano. Petrópolis, RJ: Vozes, 1999. 
SAINT-EXUPÉRY, Antoine de. O Pequeno Príncipe. São Paulo, SP: Círculo do Livro, 1989. 
ROSELÓ, F. T. Antropologia do cuidar. 1. ed. Org. Vera Regina Waldow. Trad. Guilherme Laurito Summa. Petrópolis, RJ: Vozes, 2009.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Indicando: Bicho de Sete Cabeças


Bicho de Sete Cabeças é um filme de drama brasileiro de 2000 dirigido por Laís Bodanzky e com roteiro de Luiz Bolognesi baseado no livro autobiográfico de Austregésilo Carrano Bueno, Canto dos Malditos. O filme foi realizado com a parceria entre as produtoras brasileiras Buriti Filmes, Dezenove Som e Imagens Produções Ltda. e Gullane Filmes, com a participação da brasileira Rio Filme Distribuidora e da italiana Fabrica Cinema, e contou com Rodrigo Santoro, Othon Bastos e Cássia Kiss nos papéis principais.

Sinopse

Uma viagem ao inferno manicomial. Esta é a odisséia vivida por Neto, um jovem de classe media baixa que leva uma vida comum até o dia em que o pai o interna em um manicômio depois de encontrar um cigarro de maconha em seu bolso. O fato é a gota dágua que deflagra a tragédia na família. Neto é um adolescente em busca de emoções e liberdade, com pequenas rebeldias incompreendidas pelo pai, como pichar muros e usar brincos. A falta de entendimento leva ao emudecimento na relação dentro de casa e o medo de perder o controle sobre o filho vira o amor do avesso. No manicômio, Neto conhece uma realidade absurda e desumana, onde os internos são devorados por um sistema corrupto e cruel. A linguagem de documentário utilizada pela diretora empresta ao filme uma forte sensação de realidade, aumentando ainda mais o impacto das emoções vividas pelo protagonista.

       


ANÁLISE DO FILME: BICHO DE SETE CABEÇAS
OBSERVANDO AS ALTERAÇÕES NAS FUNÇÕES PSÍQUICAS.

O Bicho de Sete Cabeças é um filme brasileiro estreado em 2000, baseado em fatos reais que são relatados no livro autobiográfico Canto dos Malditos de Austregésilo Carrano Bueno, aborda a relação entre pais e adolescentes e a realidade manicomial em nosso país.
Retrata a história de uma família, evidenciando uma relação conturbada entre pai e filho, respectivamente, Wilson e Neto, no qual o jovem é usuário de psicoativos. Como dependente químico, Neto apresenta algumas alterações na sensopercepção, apresentando vivências alucinatórias nas diversas modalidades sensoriais, acompanhado por alucinações visuais (que podem ser simples ou complexas).
Um exemplo disso é, na hora em que está indo assistir ao jogo com seu pai, que o Sr. Wilson pede para que seu filho pegue o jornal de esportes no banco de trás do carro. Neto não consegue distinguir, de modo nítido, o que está escrito e nem ouvir seu pai claramente, que, nesse caso, seriam as alucinações auditivas – nas áudio-verbais, o paciente escuta vozes sem qualquer estímulo real –  e que, quase sempre, tem conteúdo depreciativo ou persecutório. Em alguns casos, existem as "vozes de comando", as quais ordenam os pacientes a realizarem atos, outras vezes surgem às vozes que comentam as atividades corriqueiras do paciente.
Um exemplo que podemos relatar, no filme, dessas alucinações audiovisuais, é durante a viagem de Neto, em que ele está dentro da piscina, e é assediado por um cara conhecido de seu amigo, e Neto se irrita, sai correndo, e vai embora. Neste momento, ele projeta a imagem e a voz de seu pai, lembrando-se de alguns momentos antes de viajar, em que o Sr. Wilson, queria arrancar o brinco da orelha de seu filho enquanto gritava bastante, indignado com sua viagem repentina, e, principalmente, pela sua falta de recursos financeiros.
Durante todo o filme, Neto apresenta alterações de sensopercepção, mas, até então, nem seu pai ou o restante de sua família tinha desconfiado que Neto usasse maconha (também conhecida como Cannabis, causa alguns efeitos psicoativos e fisiológicos quando ingerida. Dentre alguns efeitos imediatos estão o relaxamento e a leve euforia, enquanto alguns dos efeitos colaterais são: boca seca, habilidades motoras levemente debilitadas, diminuição passageira na memória de curto prazo e vermelhidão dos olhos. Além de uma subjetiva mudança na percepção e, sobretudo, no humor, os efeitos físicos e neurológicos de curto prazo mais comuns incluem aumento da frequência cardíaca e do apetite, além da diminuição da memória de curto prazo, da memória de trabalho, da coordenação psicomotora e da concentração.). Tudo foi descoberto quando Sr. Wilson pegou o casaco de seu filho e caiu o cigarro de maconha. Sua atitude ao ver o cigarro, foi imediata. A princípio, não sabia o que fazer, conversou com sua família e, desprovido de conhecimento sobre as amizades, rotina e costumes de seu filho, resultado de sua relação ruim com seu filho, decidiu interna-lo à força e sem aviso prévio ou qualquer conversa a respeito do acontecimento.
Dentro do hospital psiquiátrico onde é internado, Neto passa por uma série do que se chamavam tratamentos, que são cruéis e desumanos, utilizando da aplicação de medicamentos, que acabam por alterar seu estado mental, trazendo como consequências as famosas alucinações, que é a percepção falseada, deformada de um objeto real, e presente. Possuindo essa ilusão corporeidade, projetando-se no espaço exterior e que é aceita como realidade. Isso, Neto apresenta de forma freqüente durante todo o filme.
No hospital há pacientes, tanto com transtornos mentais quanto dependentes químicos, o que torna qualquer possibilidade de melhora inviável, mesmo sendo evidente que não era esse o objetivo: a cura dos pacientes. Embora esta seja uma visão mais atual. Canto dos Malditos, o livro no qual o filme se baseia, foi publicado em 1998. Quem relata isso é J. Landeira-Fernandez, no livro cinema e loucura, onde a mesma fala sobre uma lei existente (Lei Federal 10.216/2001), onde de acordo com a mesma, o paciente acometido por um transtorno mental deve ser tratado, preferencialmente, em serviços comunitários de saúde mental, com a devida participação da sociedade e família. Visualizamos a falha psiquiátrica na cena em que Neto é proibido de ver a família (pelo menos nos primeiros quinze dias, e ainda é submetido ao isolamento numa solitária), e a internação psiquiátrica só é indicada quando os recursos extra-hospitalares não forem suficientes, o que também acabou sendo outro equívoco, já que Sr. Wilson nem tentou outros métodos para tentar fazer seu filho sair da dependência química.
Devido a tantas medicações (que quando não são dadas de forma inadequada são dadas de forma desnecessária), as alterações de sensação e percepção são bastante evidentes. Neto por conta dessas medicações possui alterações significativas no seu físico, engordando vários quilos, resultante das alterações produzidas sobre seus órgãos sensoriais.
O que podemos perceber no filme, é uma realidade que permaneceu bastante parecida à mesma do século XVII, onde os hospitais psiquiátricos proliferavam e abrigavam juntamente os doentes mentais, marginalizados de outras espécies, incluindo casos como o de Neto – usuário de psicoativos. O tratamento que essas pessoas recebiam na instituição era desumano. Não importando o bem-estar do paciente. Diversos depoimentos -- como o de Esquirol, um importante estudioso destas instituições no século XIX -- retratam este quadro:

"Eles são mais mal tratados que os criminosos; eu os vi nus, ou vestidos de trapos, estirados no chão, defendidos da umidade do pavimento apenas por um pouco de palha. Eu os vi privados de ar para respirar, de água para matar a sede, e das coisas indispensáveis à vida. Eu os vi entregues às mãos de verdadeiros carcereiros, abandonados à vigilância brutal destes. Eu os vi em ambientes estreitos, sujos, com falta de ar, de luz, acorrentados em lugares nos quais se hesitaria até em guardar bestas ferozes, que os governos, por luxo e com grandes despesas, mantêm nas capitais." (Esquirol, 1818, apud Ugolotti, 1949).

Situação esta, vivida pelo protagonista do filme, Neto. E o Sr. Wilson, seu pai, desconhecia essa realidade. Internou seu filho sem conversar com ele, sem se inteirar das medidas de tratamento, confiando apenas, no renome do médico psiquiátrico. O que, de certa forma, ainda podemos encontrar atualmente, embora que não esteja de forma tão evidente e ainda que, após o surgimento da Lei Federal 10.216/2001, tenha sido proibida a construção de instituições como esta e a instituída uma reforma no tratamento psiquiátrico, casos semelhantes a este.
Como conseqüência de um conjunto de fatores já abordados acima, Neto também possui alterações quantitativas. Nesse caso, as imagens perceptivas têm uma intensidade anormal, para mais ou para menos.
Após um encontro entre os pais de Neto e o mesmo, devido à falta que  Dona Meire – mãe dele -  e dos seus pedidos para sair de lá, decidiram retirá-lo do hospital psiquiátrico e leva-lo para casa. Como consequência das semanas de maus tratos, Neto se encontrava perturbado, tendo lembranças frequentes de sua internação e da sua relação ruim com seu pai. Sofria de alucinações, tremia, chorava, desesperava-se e havia perdido a vontade de mobilizar-se a qualquer atividade que fosse, ficou com o que podemos apontar trauma. Passava os dias e noites trancado em seu quarto. Quando enfim, por causa dos pedidos de sua mãe, resolveu concorrer a uma vaga de emprego de vendedor, mas suas lembranças ruins eram frequentes, por isso, não conseguiu concentrar-se em nenhuma informação que lhe era passada ou qualquer ensinamento, e não prosseguiu com o teste.
Neto demonstrava um grande interesse por uma garota que havia conhecido durante sua viagem e que o ajudou a voltar para casa, antes de sua entrevista de emprego, encontrou-se com ela e decepcionou-se, ao vê-la namorando com outro e sem interesse nenhum nele. A somatória de sua desilusão, com as alucinações e as lembranças do período em que esteve internado, permitiu que ele fosse a uma festa, onde, usando álcool e provavelmente um psicoativo, entrou em surto, foi preso, e encaminhado novamente para outro hospital psiquiátrico.
Como não poderia ser diferente, nesse novo hospital, Neto continuou sendo tratado de forma errônea. Recebia medicamentos infundados e suas instalações eram precárias, assim como as formas punitivas de conter os pacientes considerados rebeldes. Embora, dessa vez, ele já estivesse mais experiente em relação a maneiras de burlar as regras do hospital e em não tomar os medicamentos, não foi suficiente para mantê-lo longe das vacinas chamadas “cavalais”, que causavam contrações nos músculos e dores fortes, e nem das solitárias que não tinham luz ou alimento por vários dias. Levando-o ao quase suicídio, no qual ele ateou fogo na solitária e, de fato, quase morreu.
Logo após o pequeno incêndio, Neto foi, novamente, solto. Não ficou exatamente claro se o relacionamento com seu pai melhorou, mas, por alguns momentos pareceu que sim, logo após o Sr. Wilson ter lido uma carta feita por Neto, enquanto ainda estava no hospital psiquiátrico, sobre o que ele pensava a respeito de ofensas que tinha ouvido durante sua vida.
O filme teve ótimas críticas, abordando uma questão de nível social que é o abuso sofrido pelos pacientes de hospitais psiquiátricos que são acometidos pelos médicos e funcionários que trabalham nesses lugares, que usam de toda sua maldade para trata-los. Além da questão das drogas e da relação entre pais e filhos, sendo estes outros pontos de reflexão construções bastante importantes no enredo.
Segundo Austregésilo Carrano Bueno, escritor da obra que originou o Bicho de Sete Cabeças:
Neto vem personificando um exemplo de usuário de drogas típico dos anos 60-80, que utilizavam psicoativos, como resposta a severidade dos pais, ou até mesmo com a falta de vínculo dentre eles.

"Acho que o filme ficou na dosagem certa, embora não passe nem 10% do que nós, pacientes psiquiátricos passamos dentro desses chiqueiros psiquiátricos, que ainda hoje são verdadeiras "casas de extermínio". Quando comparo essas instituições do terror com casas de extermínio, não é só pelo fato de 80% dos internos morrerem ou virarem moradores lá dentro, mas também pela prisão física e química às quais somos submetidos, ou seja, uma morte em vida que nos leva ao zumbinismo.".

Percebe-se, com isso, o foco da questão manicomial, denunciando como práticas científicas podem dar resultados incompatíveis com aquilo que mostram. Isso está bem claro, quando o Dr. Cintra Araújo e os enfermeiros Marcelo e Ivan, ambos em hospitais psiquiátricos, aplicam medicamentos com a intenção de sedar, até enlouquecer, de fato, os pacientes – vítimas – que ficam à mercê de seus cuidados. Sem realizarem consultas ou ouvir se quer a queixa dos mesmos, dando informativos de quadros clínicos sem fundamento aos seus familiares.
Como nota, é interessante apontar o fato de que a história é verídica, e que o Neto tornou-se representante nacional dos usuários na Reforma psiquiátrica do Brasil. Homenageado em 28 de Maio de 2003 pelo Ministério da Saúde e pelo Presidente da República Sr. Luiz Inácio Lula da Silva, por sua Luta e Empenho na Construção da Rede Nacional de Trabalhos Substitutivos aos Hospitais Psiquiátricos no Brasil. Neto fez o seu livro, denunciando o tratamento dado das clínicas psiquiátricas e acabou tendo que pagar em torno de 60 mil reais de indenização aos médicos e familiares, respondendo por danos morais.


 Bibliografia

FORTE, Humberto. Unidade Federal de Santa Catarina – Psiquiatria. PET-Medicina UFC 1.14.0. – Alucinação. Atualizado em: Mai, 2011. Disponível em: <http://www.digimed.ufc.br/wiki/index.php/Alucina%C3%A7%C3%B5es>. Acesso em Dez, 2013.
DOS SANTOS, Edison Vitalino.  Unidade Federal de Santa Catarina – Psiquiatria - Sensopercepção. Disponível em: <http://www.ccs.ufsc.br/psiquiatria/981-04.html>. Acesso em: Dez, 2013.
Zaytec Brasil – Pesquisa e Consultoria. Fortaleza –CE. Pesquisa Quantitativa.  Disponível em: <http://www.zaytecbrasil.com.br/index.php?option=com_content&task=view&id=2&Itemid=2>. Acesso em: Dez, 2013.
Zaytec Brasil – Pesquisa e Consultoria. Fortaleza –CE. Pesquisa Qualitativa.  Disponível em: <http://www.zaytecbrasil.com.br/index.php?option=com_content&task=view&id=1&Itemid=3>. Acesso em: Dez, 2013.
DALGALARRONDO, P. Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais. 2 ed. Porto Alegre: Artmed, 2008.
Bicho de Sete Cabeças, 2000. Disponível em: <http://www.bichodesetecabecas.com.br/>. Acesso em: Dez, 2013.
WP. A Enciclopédia Livre. Maconha. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Efeitos_da_cannabis_%C3%A0_sa%C3%BAde> Acesso em: Dez, 2013.
Universidade Estadual de Campinas. Campinas, Brasil. Reforma Manicomial. Atualizada em: Abr, 2000. Disponível em: <http://www.comciencia.br/reportagens/manicom/manicom8.htm >. Acesso em: Dez, 2013.
WP. A Enciclopédia Livre. Austregésilo Carrano Bueno. Atualizado em: Nov, 2013. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/ wiki/Austreg%C3%A9silo_Carrano_Bueno> Acesso em: Dez, 2013.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Indicando: Laranja Mecânica


Laranja Mecânica (original: A Clockwork Orange) é um filme britânico de 1971, dirigido por Stanley Kubrick, adaptação do romance homônimo de 1962 do escritor inglês Anthony Burgess. Malcolm McDowell interpreta Alex, o protagonista.
Laranja Mecânica tornou-se um clássico do cinema mundial e um dos filmes mais famosos e influentes de Kubrick. A linguagem utilizada pelo personagem Alex foi inventada pelo escritor Anthony Burgess, que misturou palavras em inglês, russo e gírias. (WP, Out, 2013).

Sinopse
No futuro, o violento Alex (Malcolm McDowell), líder de uma gangue de delinquentes que matam, roubam e estupram, cai nas mãos da polícia. Preso, ele recebe a opção de participar em um programa que pode reduzir o seu tempo na cadeia. Alex vira cobaia de experimentos destinados a refrear os impulsos destrutivos do ser humano, mas acaba se tornando impotente para lidar com a violência que o cerca.


  • Clique na barra no botão "PLAY" e assista por aqui ou seja redirecionad@ para uma outra página com um player maior para assistir: aqui.
Esse filme costura seu enredo com temas tratados pela Psicologia, como o experimento realizado por Pavlov no estudo do condicionamento clássico ou respondente, traduzido no filme pelo condicionamento do Alex (Malcolm McDowell) ao tratamento em que é submetido após ir para a prisão. O tratamento consiste em assistir filmes com cenas explícitas de violência enquanto um medicamento que provoca uma terrível sensação de náusea é administrado.

Entendendo o condicionamento clássico:

O condicionamento é um processo de aprendizagem e modificação de comportamento através de mecanismos estímulo-resposta sobre o sistema nervoso central do indivíduo. Esse processo é vinculado ao Behaviorismo ou Comportamentalismo, que é o conjunto de ideias presente na Psicologia que vê o comportamento como único, devendo ser o objeto de estudo da Psicologia.
O primeiro tipo de condicionamento, denominado Condicionamento Clássico, foi desenvolvido pelo fisiologista russo Ivan Pavlov. Pavlov fez uma experiência envolvendo um cão, uma campainha e um pedaço de carne. O fisiologista percebeu que quando o cão via o pedaço de carne, ele salivava, o que foi chamado de reflexo não condicionado.
Pavlov também começou a tocar a campainha (estímulo neutro) quando ia mostrar o pedaço de carne.

Rapidamente o cão passou a associar a carne com a campainha, salivando também toda vez que ela era tocada. Essa reação a um estímulo neutro foi chamada de reflexo condicionado. O condicionamento clássico foi importante no sentido de explicar a associação de um estímulo a outro. Assim, esse tipo de condicionamento é importante para explicar a associação (positiva ou negativa) que um consumidor faz de uma marca, por exemplo. O condicionamento clássico também possibilita o entendimento de coisas comuns do nosso dia a dia, como o barulho de um despertador, que por si só não significa nada, mas nós relacionamos aquele barulho ao objetivo de acordar em um determinado momento.

Quanto ao Alex, no filme:
Antes do condicionamento:
1 - Somente as imagens de violência que eliciava a resposta de náuseas: resposta não condicionada;
2 - Somente a música de Beethoven que não provocava resposta de náusea: resposta não condicionada.
Durante o condicionamento:
3 - Inserção da música de Beethoven à visualização das imagens de violência que eliciava a resposta de náuseas: resposta não condicionada;
4 - Somente a música de Beethoven provocava a resposta de náusea: resposta condicionada.

Sempre que o Alex ouvia Beethoven ou presenciava violência, ou até mesmo para praticá-la, ele passava mal, ou seja: comportamento modificado (condicionado). Com base nisso, podemos perceber, também, o reforço negativo. Ao evitar provocar atos violentos, estava tentando evitar as punições. Então, dentro do condicionamento clássico, o reforço negativo funciona na condição de que, extinguindo um comportamento, as punições sejam evitadas. Com o Alex foi assim:

            Comportamento                                                                                    Objetivo

   Cometer violência                               --------------->        Sensações de mau estar e náuseas

  Retirada do comportamento violento   --------------->        Evitamento das sensações de mau
                                                                                                        estar e náuseas

Contudo, ao decorrer do tempo, essa função de indução de um mal estar através das cenas de violência, se não for constantemente estimulada, acaba perdendo força e, com o tempo, será extinta, logo, o que se tem é a volta dos comportamentos violentos, uma vez que a pessoa não se encontra mais em tratamento. Com isso, concluímos que é um método falho, tendo em vista que a pessoa não vai permanecer sendo estimulada a sentir-se mal, sempre que vir ou ouvir cenas de violência e a música de Beethoven, como no caso do Alex.


Referências Bibliográficas:

BRASIL ESCOLA, Condicionamento. 2008. Disponível em: <http://www.brasilescola.com/psicologia/condicionamento.htm>. Acesso em Out, 2013.
RIBEIRO, Bruno Alvarenga. Café com Ciência. Psicologia científica ao alcance de todos. 
Laranja Mecânica: uma análise comportamental. Abril, 2013. Disponível em: <http://cafe-com-ciencia.blogspot.com.br/2013/04/analise-comportamental-do-filme-laranja-mecanica.html>. Acesso em: Out, 2013.
WIKIPEDIA, a enciclopédia livre. Condicionamento Operante.  Atualizada em: Set, 2013. Disponível em:<http://pt.wikipedia.org/wiki/Condicionamento_operante>. Acessada em: Nov, 2013.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Indicando: Juno.


"Para quem não assistiu ainda, esse filme foi lançado em 2007,dirigido por Jason Reitman e escrito por Diablo Cody . Ellen Page estrela como o personagem-título, um adolescente de espírito independente enfrentar uma gravidez não planejada e os eventos subsequentes que colocam pressões da vida adulta sobre ela. Juno ganhou o Oscar de Melhor Roteiro Original e ganhou outros três indicações ao Oscar, incluindo Melhor Filme e Melhor Atriz por página. A trilha sonora do filme, com várias canções interpretadas por Kimya Dawson em vários aspectos, foi o primeiro no topo das paradas trilha sonora desde Dreamgirls e primeiro número de uma trilha sonora da 20th Century Fox desde Titanic . Recebeu críticas positivas dos críticos, muitos dos quais colocaram o filme em seus dez listas para o ano. Ele recebeu críticas e elogios de membros dos pró-vida e pró-escolha das comunidades em relação ao seu tratamento do aborto"
 (WP, 2013).

Sinopse:
O filme mostra situações de uma menina de 16 anos chamada Juno, que engravida de seu companheiro de classe Bleeker, e desiste de fazer um aborto. Com a ajuda do pai, da madrasta e da melhor amiga Leah(Olivia Thirlby), a jovem adolescente procura o casal "perfeito" para criar seu filho, e encara situações delicadas e incomuns para sua maturidade. É então que elas encontram Mark e Vanessa Loring (Jason Bateman e Jennifer Garner), um jovem casal que pretende adotar seu primeiro filho. Felizmente, Juno tem o apoio do pai (J.K. Simmons) e da madrasta (Allison Janney), que depois do choque inicial de que sua filha já tem uma vida sexual com o nada viril Bleeker, decidem unir-se para ajudá-la.



Analisando pelo aspecto "gravidez na adolescência":
Apesar da ampla informação que hoje se tem sobre tal assunto ainda se pode perceber que os adolescentes continuam engravidando. Bom, pelo menos pela falta de informação não é, ainda mais com anticoncepcionais tão acessíveis e tão bem divulgados como se tem atualmente.
Juno, uma adolescente bem descolada como mostra no filme, digamos assim, engravida logo na sua primeira vez. Com o consentimento dos pais chega logo à conclusão de que o melhor a se fazer é entregar o filho para adoção e assim continuar a sua vida.
A gravidez na adolescência, na verdade, ela passa a ser um problema quando dependendo do contexto familiar e econômico que o jovem/adolescente tem. Já que são essas variáveis que determinam o tamanho da mudança que o adolescente terá que enfrentar após o nascimento do filho.
Apesar de Juno não ter sido abandonada pelos pais e ter encontrado pais “aparentemente” ótimos para criar seu filho ela ainda estava mexida com tudo aquilo, ainda apresentava certa imaturidade no sentido biológico e psicológico.
Enfim, todo esse processo que o adolescente enfrenta durante uma gravidez e estando dentro de um contexto biologicamente e psicologicamente precoces para enfrentar tal acontecimento, estes podem ser relevados ou amenizados se esse adolescente tem um apoio família e uma base econômica que sirvam como facilitadores para que seu desenvolvimento continue sem tantos impactos.


Disponível para 
download ou online - dublado (4Shared): 




Bibliografia
• Wikipédia, a enciclopédia livre. Juno (filme). Modificado em Set. 2013. Disponível em: <http://en.wikipedia.org/wiki/Juno_(film)>. Acesso em: 22 Set. 2013.
• ADOROCINEMA. Juno. Disponível em: <http://www.adorocinema.com/filmes/filme-121167/>. Acesso em 22 Set. 2013.

domingo, 19 de maio de 2013

Indicando: Precisamos falar sobre Kevin

Estou postando dessa vez algo de cunho indicativo, super recomendo esse filme.
Há também o livro, riquíssimo em detalhes que lhe farão compreender melhor o que se passa. 

Sinopse:
Eva (Tilda Swinton) mora sozinha e teve sua casa e carro pintados de vermelho. Maltratada nas ruas, ela tenta recomeçar a vida com um novo emprego e vive temorosa, evitando as pessoas. O motivo desta situação vem de seu passado, da época em que era casada com Franklin (John C. Reilly), com quem teve dois filhos: Kevin (Jasper Newell/Ezra Miller) e Lucy (Ursula Parker). Seu relacionamento com o primogênito, Kevin, sempre foi complicado, desde quando ele era bebê. Com o tempo a situação foi se agravando mas, mesmo conhecendo o filho muito bem, Eva jamais imaginaria do que ele seria capaz de fazer.


Analisando Psicanaliticamente:
      "Precisamos falar Sobre Kevin", é um drama que retrata a relação conturbada de uma mãe com um filho que ela nunca desejou ter e que por conta disso, não sabia como amá-lo. Este, como consequência, sofre e responde amargamente essa rejeição.
      Eva não desejava ser mãe, mas sua barriga crescia a cada mês, e por conta disso, abdicou de sua carreira e sonhos. Essa sensação de perca não permitiu que Eva criasse um vínculo de amor com seu filho, Kevin. A relação da mãe com o filho é extremamente importante para a constituição da criança como sujeito e da sua relação com o mundo. Kevin tem uma mãe que não se identifica com essa condição e que por conta disso, a situação é devastadora para ambos.
 Segundo Lacan, a criança não nasce sujeito, é simplesmente um ser regido por pulsões que precisam ser atendidas. Esse período é chamado por Freud de autoerotismo. A partir daí, ocorre um novo momento psíquico, onde o bebê inicia a constituição do seu eu corporal como unidade. Lacan o chama de Estádio do Espelho, constituído por três etapas. Na primeira, o bebê percebe o mundo apenas como uma extensão de si. Na segunda, a criança percebe a imagem do outro (mãe), mas de forma irrealizada. Na terceira fase, o bebê se percebe enfim, e ocorre à identificação à sua própria imagem, uma identificação à mãe como imagem. A mãe funciona como um espelho para a criança, refletindo o que esta virá a ser. É uma relação extremamente próxima e necessária, que determinará toda dependência moral e afetiva da criança. O eu é, assim, formado como um conjunto de traços de identificação com o outro. Kevin quando nasceu, chorava muito e Eva não sabia como lidar com isso, e desesperava-se, achava que ele o fazia na tentativa de afetá-la. O que me faz lembrar que é muito importante que a mãe se identifique e signifique as necessidades do bebê, pra que ele possa se sentir querido e protegido.
      Durante toda a sua vida, Kevin pode perceber a ausência do amor materno, e do quão enfadonho era pra sua mãe, o peso de ter um filho indesejado. Isso se mostra perfeitamente durante todo o filme, mas em especial, num dado diálogo dos dois, quando Kevin ainda criança, responde: "Só porque você se acostuma com uma coisa, não quer dizer que você gosta dela. Você se acostumou comigo.". Ele respondeu toda a rejeição de forma violenta, onde tudo o que importava pra ele, era a reação de sua mãe diante de seus atos agressivos. Tudo era questão de despertar algum sentimento, mesmo que fosse a raiva. Considerando Lacan: “Personalidade é sempre o resultado interativo de fatores genéticos e constitucionais com fatores aprendidos ou ambientais.” e não podia ser diferente nesse caso, ele construiu o seu eu, a partir do que sua mãe refletia, ou seja, maldade, frieza e sadismo. Kevin queria controlar a mãe, isso se mostra claramente quando ainda aos seis anos, usava fralda, no descontrole de seus esfíncteres, uma fase (anal) que deveria ter acabado pelo menos há dois anos. Dá-se então, um momento crucial da história. Eva descontrola-se e expressa, finalmente, alguma atitude às afrontas de seu filho agredindo-o, mas não sabe como lidar com a situação, sente-se culpada e torna à posição de submissa em relação a Kevin, novamente. E ele, claro, usa dessa agressão pra concretizar seu controle por sua mãe. O que remete a outra passagem, quando Kevin já adolescente sai com sua mãe, para uma tarde a dois, proposta por Eva, onde, diga-se de passagem, ela agiu friamente todo o tempo, e ele afirma que pode julgar sua mãe pelos seus atos de maldade, porque ele os conhecia muito bem.
       Então Eva engravida do segundo filho. Nasce uma menina, Celia, que é uma das vítimas das maldades do irmão mais velho. Uma vez que, sendo a menina fruto de uma relação amorosa madura, por tanto recebendo uma criação repleta de amor e mimos, faz de Kevin ainda mais revoltado, ao perceber a discrepância da relação Eva-Kevin e Eva-Celia. O pai (Franklin), quase nunca aparece ao decorrer da história. Quando aparece, é extremamente omisso e permissivo, pra ele é muito mais fácil culpar Eva de ser paranoica quanto às maldades de seu filho do que admitir que ele tenha um problema. Franklin não exercia a função paterna, de autoridade, e por isso não ouve a castração no complexo de Édipo. Kevin usa disso pra afetar sua mãe. De forma dissimulada, mostra pra Eva o quanto seu pai sempre acerta com ele, e de como o ama por isso. Seu objetivo sempre foi afetar a mãe, ter a atenção dela pra si. Então, no seu aniversário de 16 anos, Kevin é autor de uma chacina, onde mata vários alunos da escola onde estuda e seu pai e irmã.
      No ato de matar Franklin e Celia, as pessoas que Eva realmente tinha amor, ele toma os objetos de desejo da mãe, e finalmente consegue sua atenção, o seu amor. Esse, a meu ver, seria o complexo de Édipo.

sábado, 13 de abril de 2013

Indicando: "Garapa: 'É verdade'"


Sinopse:
"Garapa é um documentário brasileiro de 2009,dirigido por José Padilha. O documentário tem como  tema a fome no mundo, e teve a sua pré-estréia na 32ª edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. O filme é fruto de mais de 45 horas de material filmado por uma pequena equipe que, durante quatro semanas, acompanhou o cotidiano de três famílias no estado do Ceará em estado de insegurança alimentar grave.
A produção representou o Brasil na categoria documentários no Festival internacional do filme de Berlim de 2009".

Começa, de fato, a partir de (0h:2m:40s)


Contextualizando:
     É impressionante como nós não temos tempo pra ver o sofrimento alheio. Eu, pelo menos, embora veja todos os dias mendigos, meninos em sinais, e famílias inteiras sem moradia, pelos jornais de televisão e pelas ruas da cidade, nunca tomei consciência do que é a pobreza de verdade, do que é ter que viver todos os dias pensando se vai ter comida pra mais tarde ou pra amanhã. Pude perceber que estamos muito distantes disso. Então eu me perguntei: “E como resolver isso? Qual seria a fonte do problema?” Só que na verdade, são tantas as questões, culturais, sociais, políticas e tantas outras, que eu me perco em meio a tanta precariedade.
     Ao decorrer da história relatada sobre as três famílias, me levantavam questões superficiais sobre como eles tão pobres ainda tinham tantos filhos. Sobre os maridos, um que se tinha um dinheirinho a mais hoje, amanhã não trabalhava e seja o que Deus quiser, gastando o pouco que tinha em bebida, o outro que passava o dia capinando o capim que não tinha. Mulheres que sofriam com a agressividade de seus maridos e então, quase que simultaneamente, também saltava um leque de respostas. Não há como não ter filhos se não há prevenção sexual, não há como haver prevenção sexual se não há informação ou acesso aos meios que possam evitar os filhos, não há como guardar dinheiro se eles não têm uma cultura que prega o crescimento pessoal e financeiro, não há como ter acesso à informação se não há educação, e essas famílias não tem nenhuma perspectiva de vida. Estão ali apenas pela sobrevivência. Todas as preocupações se resumiam em o que eles iam comer no final do dia. Com suas condições precaríssimas de saúde, a ausência de saneamento básico e educação, a falta de uma moradia adequada, vivendo da caridade alheia, ou seja, sem as condições básicas que um indivíduo precisa pra viver.
     Angústia é a palavra que define o que eu senti. Passei durante todo o documentário com as mãos frias, suando e estática. Acredito que finalmente eu percebi quais as necessidades que precisam ser trabalhadas na psicologia. Ascendeu uma enorme vontade de ir a campo, de procurar meios pra mudar essa situação, e não somente encontrar esses meios, mais de fazer tudo acontecer.
     O povo tem urgência da ação e não de promessas de mudanças da politicagem e dos profissionais formados que trabalham em clínicas, e em lugares privados esperando que essas pessoas necessitadas vão ate eles, porque isso não vai acontecer. Só de me lembrar do documentário, me dá uma tensão, e a tristeza de ver a realidade tão triste em que essas pessoas vivem. Tristeza essa que não vai acabar no conformismo.

Bibliografia:

Zazen Produções, Downtown Filmes e PETROBRAS. Garapa. Disponível em: <http://www.garapaofilme.com.br/portugues/index.htm> .

UOL Cinema: Metrópolis - José Padilha fala sobre "Garapa". Atualizado em: Abr. 2009. Disponível em: <http://mais.uol.com.br/view/a56q6zv70hwb/metropolis--jose-padilha-fala-sobre-garapa-0402386EDCB99326?types=A&>.

CALIL, Ricardo. Folha de S. Paulo: Filme de José Padilha falha ao analisar a fome no Brasil. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u573561.shtml>.