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segunda-feira, 21 de abril de 2014

Colocando o papo em dia: Femicídio/ Feminicídio

       Depois de tanto tempo sem atualizar o blog, só o que há é assunto pra por em dia, certo?
    A propósito, venho notado que a violência tem tido maior incidência nesse período pré copa. Tô enganada ou vocês também? Sinceramente, tenho tido medo de por o pé na rua e até mesmo de estar dentro de casa. Não consigo mais não ter medo. Simplesmente não dá pra ignorar que todo e qualquer bandido na face desse mundo tem mais respeito e liberdade que eu.
       Pra não dizer que tô só de conversa fiada, vou mostrar uns dados simples, começando do geral e depois afunilando:

       As armas não foram legalizadas. Há campanhas de desarmamento no país, e os dados de mortes por armas de fogo nos últimos anos só estão crescendo:
"BRASÍLIA - O Mapa da Violência 2013 - Mortes Matadas por Armas de Fogo, divulgado nesta quarta-feira, 6/03/13, informa que 36.792 pessoas foram assassinadas a tiros em 2010. O número é superior aos 36.624 assassinatos anotados em 2009 e mantém o país com uma taxa de 20,4 homicídios por 100 mil habitantes, a oitava pior marca entre 100 nações com estatísticas consideradas relativamente confiáveis sobre o assunto."
       Agora, parem pra pensar que esses dados seguem de acordo com os crimes delatados, imagine os que não são. Imagine os crimes que as autoridades cometem e fica tudo em off. Imagine os crimes daquelas pessoas que não existem socialmente, como os moradores de rua que não possuem documentos que "provem sua existência". Soma com as pessoas "desaparecidas" há dias, meses e anos, que não entram nessa estatística. Soma também, com aqueles que morrem nas mãos de perversos e que são contabilizados como suicidas (lembrei do caso de um garoto que foi clara e brutalmente assassinado após sair de uma festa, e que, por ventura, era gay, e a polícia registrou o caso como suicídio). A vida não está valendo um centavo furado! Essa é a sensação que tenho. Mas, isso foi só pra contextualizar, vamos ao que interessa.

Delitômetro (Fique por dentro clicando aqui):
Números coletados do IAB - Instituto Avante Brasil (08.04.2014), com aumento frequente por minuto.


       Antes de tudo, para não variar, questionarei um pouquinho: Por que vocês acham que ali no Delitômetro tem um lugar específico para homicídios de mulheres? Uma pesquisa traz que o Brasil tem, simplesmente, três cidades brasileiras dentre as mais violentas do PLANETA, com números considerados epidêmicos pela OMS - Organização Mundial da Saúde!!! E olha que legal: uma delas vai ser cede de um dos jogos da Copa 2014 Saiba mais clicando aqui.. Esclarecendo que apesar da imagem tratar de homicídios em geral, meu foco não é eles, mas os femicídios e feminicídios. 
       Primeiramente, vamos saber o que é femicídio e/ou feminicídio:
      Antes de mais nada, há uma pequena diferença entre ambos os termos pois enquanto femicídio é a morte de indivíduos do sexo feminino, a segunda expressão diz respeito à morte de mulheres por motivação política:
"Feminicídio é algo que vai além da misoginia (ódio, desprezo ou repulsa ao gênero feminino e às características a ele associadas), criando um clima de terror que gera a perseguição e morte da mulher a partir de agressões físicas e psicológicas dos mais variados tipos, como abuso físico e verbal, estupro, tortura, escravidão sexual, espancamentos, assédio sexual, mutilação genital e cirurgias ginecológicas desnecessárias, proibição do aborto e da contracepção, negação da alimentação. Constitui uma categoria sociológica claramente distinguível e que tem adquirido especificidade normativa a partir da Convenção de Belém do Pará, Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher, adotada pela Assembléia Geral da Organização dos Estados Americanos (OEA) em 09 de junho de 1994 e ratificada pelo Brasil em 27 de novembro de 1995. "
       Entre um termo ou outro, há países que incluíram o crime no código penal, como o México e a Costa Rica, por exemplo. No Brasil, ainda está prevista esta conquista, com a terminologia feminicídio. Mas, seguindo a terminologia elaborada pela Ana Carcedo, em uma pesquisa na Costa Rica,  a 
Wânia Pasinato traz três diferenças básicas quanto ao femicídio:
  • Femicídio íntimo: aqueles crimes cometidos por homens com os quais a vítima tem ou teve uma relação íntima, familiar, de convivência ou afins. Incluem os crimes cometidos por parceiros sexuais ou homens com quem tiveram outras relações interpessoais tais como maridos, companheiros, namorados, sejam em relações atuais ou passadas; 
  • Femicídio não íntimo: são aqueles cometidos por homens com os quais a vítima não tinha relações íntimas, familiares ou de convivência, mas com os quais havia uma relação de confiança, hierarquia ou amizade, tais como amigos ou colegas de trabalho, trabalhadores da saúde, empregadores. Os crimes classificados nesse grupo podem ser desagregados em dois subgrupos, segundo tenha ocorrido a prática de violência sexual ou não. 
  • Femicídios por conexão: são aqueles em que as mulheres foram assassinadas porque se encontravam na “linha de fogo” de um homem que tentava matar outra mulher, ou seja, são casos em que as mulheres adultas ou meninas tentam intervir para impedir a prática de um crime contra outra mulher e acabam morrendo. Independem do tipo de vínculo entre a vítima e o agressor, que podem inclusive ser desconhecidos. 
       Em relação às condições em que o crime foi cometido, 50% dos femicídios envolveram o uso de armas de fogo e 34%, de instrumento perfurante, cortante ou contundente. Enforcamento ou sufocação foi registrado em 6% dos óbitos. Maus tratos – incluindo agressão por meio de força corporal, força física, violência sexual, negligência, abandono e outras síndromes de maus tratos (abuso sexual, crueldade mental e tortura) – foram registrados em 3% dos óbitos. 36% ocorreram nos fins de semana e 30% ocorreram em vias públicas. A grande maioria das vítimas é de mulheres negras (60%) e de 20 e 39 anos (54%).
       Isso é femicídio, gente! Ou seja, a morte de mulher que decorre de conflito de gênero cometidos por homens. Em suma, é o crime em que a mulher é assassinada por ser mulher, por estar inserida em um contexto no qual o homem se sente dono da mulher, mantendo uma relação de poder sobre ela. Então, age baseado numa teoria machista de que a mulher tem que se submeter à todos os seus caprichos e vontades e ainda ser vítima de seus atos de violência caladas, porque, teoricamente, merecem.
       Estudos do Instituto Sangari, apresentam uma perspectiva histórica dos homicídios, revelando que entre 1980 e 2010 foram assassinadas aproximadamente 91 mil mulheres no país, passando de 1.353 para 4.297 mortes, um aumento de 217,6% nas mulheres vítimas de assassinato, sendo 43,5 mil só na última década (2000 – 2010). A taxa desses assassinatos para cada grupo de 100 mil mulheres passou de 2,3 em 1980, para 4,4 em 2010. Isso representa uma média de 5.664 mortes de mulheres por causas violentas a cada ano, 472 a cada mês, 15,52 a cada dia, ou uma a cada hora e meia.
       "Em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher". Ditado popular que caracteriza a omissão de muitos casos de violência doméstica. Tem gente que acha que, por serem parceiros, estupro não existe. Acham que violência é permitido. Afirmam que o homem tem sempre razão em tratar sua parceira de qualquer jeito. Afinal, casou porque quis, não é? Quando o caso piora a ponto de um assassinato, não demora pra vermos reportagens que trazem através de pesquisas, que há municípios que não registraram mortes de mulheres nos últimos 5 anos. É mole uma coisa dessas?
       "No caso das mulheres, os assassinos são atuais ou antigos maridos, namorados ou companheiros, inconformados em perder o domínio sobre uma relação que acreditam ter o direito de controlar”, explica Wânia Pasinato Izumino, pesquisadora do Núcleo de Estudo da Violência da USP. Isso nos remete ao fato de que a maioria dos crimes estão caracterizados como feminicídio íntimo. Só uma observação.
       Um grande problema nisso tudo, é que mesmo após a Lei Maia da Penha, os crimes não diminuíram, e o femicídio/ feminicídio não se encontra ainda no código penal no Brasil, então os crimes cometidos por parceiros, são considerados passionais, em outras palavras, um crime motivado por intensa emoção, pela paixão. A emoção não exclui a culpabilidade do crime. O art 28, I do Código Penal é taxativo em dizer: "não exclui a punibilidade: I - a emoção e a paixão". Por outro lado, se o sentimento gerado for uma provocação injusta, pode existir situação em que esse estado de espírito gere uma atenuante. É o que ocorre no homicídio privilegiado (§ 1°, art. 121) em que quando o agente pratica o homicídio, deixando-se levar por motivos de reprovação a sua moral. No que toca a pena, esta pode variar de doze a trinta anos de reclusão, mas se pode reduzir a pena de 1/6 a 1/3, quando praticado "sob o domínio de violenta emoção". Daí, em algumas situações, a defesa tentar usar a antiquada e ultrapassada tese de se "lavar a honra com sangue...".
       Em um estudo das motivações de 23 assassinatos contra mulheres ocorridos nos cinco primeiros meses do ano 2010 e investigados pelo Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa de São Paulo (DHPP), em 25% dos casos o motivo foi qualificado como torpe. São casos como negativas de fazer sexo ou de manter a relação. Em 50% das ocorrências, o motivo foi qualificado como fútil, como casos de discussões domésticas. Houve 10% de mortes por motivos passionais, ligados a ciúmes, por exemplo, e 10% relacionado ao uso ou à venda de drogas.
       Mas, nem tudo está eternamente perdido, pois o feminicídio deve figurar, automaticamente, como um dos crimes hediondos. O projeto de lei do Senado (PLS) 292/2013 altera o Código Penal (Decreto-Lei 2.848/1940) para estabelecer que um assassinato será considerado feminicídio de for praticado “contra mulher por razões de gênero”. A proposta estabelece que a razão de gênero será considerada quando constatadas quaisquer das seguintes circunstâncias no assassinato: violência doméstica e familiar, nos termos da legislação específica; violência sexual; mutilação ou desfiguração da vítima ou emprego de tortura ou qualquer meio cruel ou degradante. Acrescenta, então, à Lei Maria da Penha, uma completude que fará cumprir, de fato, o que é o direito da mulher. Oriunda da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito da Violência contra a Mulher, tramita na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) na forma do substitutivo apresentado pela relatora, a senadora Ana Rita (PT-ES), presidiu a CPI.
       O projeto acrescenta inciso ao parágrafo segundo do art. 121 do Código Penal, estipulando assim que o feminicídio será o sexto tipo de homicídio qualificado da legislação penal. A pena prevista para homicídios qualificados é de 12 a 30 anos de reclusão. A tentativa de homicídio também é crime. Além disso, a Lei 8.072/1990 estabeleceu que todo homicídio qualificado, “consumado ou tentado”, é considerado crime hediondo. E todo crime hediondo não é suscetível de anistia, graça, indulto ou fiança.
       Só que, claro, nem tudo são flores, amores e bla bla blá. Estamos falando de um projeto que está tramitando, além de estarmos no Brasil, conhecidíssimo pela sua rapidez e eficiência  no tocante ao que é, de fato, importante e urgente.
"Fico pensando na própria Maria da Penha, eletrocutada e atingida por disparos de arma de fogo. Que tipo de força física é necessária para empunhar uma arma? Não arranjemos desculpas. O que mata mulheres é a misoginia, é a objetificação dos nossos corpos, a desumanização a que somos submetidas a todo instante." 
_______________________________________
Nádia Lapa 


Referências Bibliográficas:

- Três cidades brasileiras estão entre as dez mais violentas do planeta: http://g1.globo.com/fantastico/noticia/2014/03/tres-cidades-brasileiras-estao-entre-dez-mais-violentas-do-planeta.html
- IAB - Delitômetro: http://institutoavantebrasil.com.br/
- Mapa da Violência 2013: Brasil mantém taxa de 20,4 homicídios por 100 mil habitantes: http://oglobo.globo.com/pais/mapa-da-violencia-2013-brasil-mantem-taxa-de-204-homicidios-por-100-mil-habitantes-7755783#ixzz2yGoGbX7z
- UOL Notícias: http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2013/09/25/lei-maria-da-penha-nao-diminuiu-violencia-contra-mulher-no-brasil-diz-ipea.htm
- Carta Capital: http://mairakubik.cartacapital.com.br/2013/09/25/apos-lei-maria-da-penha-indice-de-assassinatos-de-mulheres-continua-alto/
- Adital - Estudo do Instituto Sangari sobre Feminicídio: http://www.adital.com.br/site/noticia_imp.asp?lang=PT&img=S&cod=68325
- Paraíba: http://www.paraiba.com.br/2014/04/01/90442-aqui-e-a-roupa-curta-la-e-o-rimel-embaixo-da-burca
- Estadão: http://www.estadao.com.br/noticias/cidades,dez-mulheres-sao-mortas-por-dia-no-pais,575974,0.htm
- IPEA: Um estudo sobre o feminicídio: http://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/130925_sum_estudo_feminicidio_leilagarcia.pdf
- Misoginia: http://pt.wikipedia.org/wiki/Misoginia
- Feminicídio e as mortes de mulheres no Brasil: http://www.scielo.br/pdf/cpa/n37/a08n37.pdf
- Feminicídio: http://pt.wikipedia.org/wiki/Feminic%C3%ADdio#cite_ref-Pasinato_4-0
- JusBrasil: Que se entende por femicídio?: http://lfg.jusbrasil.com.br/noticias/92662/que-se-entende-por-femicidio
- IPS: ¿Femicidio, feminicidio? El genocidio necesita un nombre en América Latina: http://www.ips.org/blog/mdg3/2010/08/%C2%BFfemicidio-feminicidio-el-genocidio-necesita-un-nombre-en-america-latina/
- JurisWay: O Julgamento dos Crimes Passionais: http://www.jurisway.org.br/v2/dhall.asp?id_dh=5238
- Diário de Pernambuco: Feminicídio poderá ser crime hediondo: http://www.diariodepernambuco.com.br/app/noticia/brasil/2013/11/19/interna_brasil,474698/feminicidio-podera-ser-crime-hediondo.shtml

domingo, 4 de agosto de 2013

Sobre o Aborto e o Estatuto do Nascituro


        E por entre os meus posts, mais um a respeito dos direitos humanos. Por agora, o que posso dizer como inspiração inicial, foi uma page que acabei de encontrar, que trata sobre o pragmatismo político. Talvez, não esteja sendo politicamente correta, quando lanço determinadas questões no "SilênciOQUÊ?", mas eu não consigo não fazê-las. Vou lançar umas agora:
"Como pode haver a possibilidade de criminalizar uma mulher por não manter um feto em seu útero, tendo ela o DIREITO de escolha, o LIVRE ARBÍTRIO ou seja lá o que mais pode ser chamado?" 
Imagem retirada do site Pública
Perceba que na frase é explícito que o útero é dela, da indivídua em questão. O feto dela. Incluindo nesse pacote, a vida dela. Sendo assim, quem mais, se não ela, pode decidir se haverá ou não a permanência da gestação?! Então, pareceria tão óbvio quanto realmente é, se no lugar de gravidez e feto, eu colocasse a situação dela estar tentando se livrar de um objeto qualquer, como um batom, por exemplo. Ai vem a dramatização excedente de que não é um batom, é uma vida. Não, não é uma vida que vai ser expelida num aborto. São células. Mas e as imagens horríveis de bebês despedaçados após abortos que a gente vê na internet e nas campanhas contra o aborto? São completamente diferentes do que a descriminalização e legalização do aborto propõe. Eu já havia dito isso antes. Só pra refrescar, você pode ler a respeito aqui, e então prosseguiremos com a discussão. Essa imagem de "situação monstro" não tem nada de monstruosa quando se trata realmente dos fatos e não da politicagem e religiosidade das pessoas. O mundo não é fantasia, não é ideal.
        Vamos nos ater aos fatos. Você já deve ter ouvido falar no Estatuto do nascituro? Se não, pode ler aqui. Se trata de um projeto de lei, aprovado pela Comissão de Finanças e Tributação da Câmara em 5 de Julho de 2013, que visa proteger o nascituro - negação de nascido - como sendo, inclusive, mais importante que a vida da própria mulher, independente da situação em que ele foi concebido. Exemplo? Se uma garota de 12 anos (idade meramente ilustrativa) é estuprada, ela é obrigada a ter a criança. Se o pai (estuprador) reconhecer a criança, e decidir não ter um relacionamento com a vítima, a criança receberá uma pensão do mesmo. Se o pai (estuprador) não reconhecer a criança ou for comprovado que ninguém sabe quem ele é, então o Estado é responsável. Então, ele dar-se-à bolsa estupro.
OK. Muito lindo, quase poético. Agora me diga qual o estuprador que vai cometer o crime e depois vai se identificar como causador do delito, se a vítima engravidar, e vai assumir a criança? (risos irônicos). 
Um outro exemplo? Uma gravidez de alto risco para a mulher, no qual ela não tem direito de decidir se vai continuar com a gestação ou se vai interromper em prol de sua própria vida. E se houver a possibilidade de um tratamento, se este puder afetar o embrião/feto/bebê, ele deverá ser cessado. Não sendo quaisquer uma dessas exigências cumpridas, é considerado crime. Bem como nos casos de anencefalia, que também vão ser considerados crimes, os abortos. É impressionante a falta de importância que dão a mulher ainda no século 21.
Imagem retirada do site Pública
         Mulheres morrem todos os dias, porque não querem ter filhos e vão em lugares clandestinos fazerem o que é necessário. Uma lei não pode obrigar a alguém ter uma criança contra sua vontade. A legalização, só facilitaria o processo, preservando a vida da mulher, para que fosse menos traumático e para que houvesse menos mortes por aborto. É traumático tanto para a mulher que sobrevive a um aborto feito por uma carniceira qualquer, quanto para a que não consegue abortar, assim como para a criança fruto desse não aborto. Uma mulher que não quer ser mãe, não saberá como criar a criança que sobreviveu com o amor de uma que planejou ter um filho, refletindo também na criança que vai crescer com uma miscelânea de sentimentos ruins. Ou seja, é só tragédia! Um exemplo lindo de país é o Uruguai, que em seis meses de legalização, não registra mortes das mulheres que abortaram. 2.550 abortos legais, e o país se tornou um dos que possuem as taxas de abortos mais baixas do mundo³.
        Como se já não bastasse garantir o direito de um embrião, violando os Direitos Humanos das mulheres, ainda interfere nas pesquisas com células tronco no país. De que forma? Esse Estatuto, é como se fosse uma espécie de continuação de um projeto de lei lançado no ano de 2007, com o propósito de fazer uma alteração do código penal brasileiro para considerar o aborto como crime hediondo, proibir em todos os casos, além de proibir o congelamento, descarte e comércio de embriões humanos, com a única finalidade de serem suas células transplantadas em adultos doentes¹ ².
        E como não falar sobre o machismo depois de tudo que já foi dito aqui? Inconcebível. Não é de hoje que se ouve de ambos os gêneros, tanto masculino quanto feminino, que os estupros são culpa das mulheres. Além de que, acredito que o aborto, só não é permitido, porque nenhum homem teve que passar por uma gestação ou teve a responsabilidade de gerar uma criança. Veja que essa questão é bem maior do que se pensa. É totalmente cultural. A falta de liberdade das mulheres em não poderem decidir sobre seu próprio corpo. Sempre há uma justificativa por parte da sociedade como um todo, para tirar o direito da mulher ser dona de si. Mas voltando pra questão do estupro, é bem comum, haver x pessoas afirmando que a mulher só é violentada, porque usa roupa curta, porque rebola, porque usa batom vermelho, porque o cabelo é de um jeito, porque usa tatuagem, porque ouve funk etc. São milhares de razões pra culpa ser sempre da mulher. Então, eu só posso pensar que, se eu usar saia justa, batom vermelho e for num baile funk, nossa... Eu quero ser estuprada!!! 
Imagem retirada do site Pragmatismo Político
        Como viver num mundo, onde o discuso de liberdade de expressão é contemplado por todos, mas que não passa de um mero ideal fantasioso?! Eu tenho medo de ir na esquina da minha casa, simplesmente porque alguém em algum lugar se acha no direito de me violentar, porque me considera vadia, simplesmente por optar por uma saia e não uma burca! Vocês sabem o que é isso? Viver aterrorizada por toda sua vida? Como você pode se achar no direito de tocar em mim contra a minha vontade e ainda colocar a culpa em mim? Eu falo em nome de todas as mulheres que também sentem medo, diariamente de sair de casa e não voltarem ilesas de um dia de trabalho, de uma festa, da casa de um amigo ou de qualquer outro lugar. Só porque alguém acha que pode fazer o que quiser conosco. Só que vale ressaltar, que as mulheres que andam todas cobertas e que escutam músicas "boazinhas", também passam por isso, assim como crianças e idosos - sim, todos são possíveis vítimas. Ou seja, não há justificativa pra essa monstruosidade. Só basta ter alguém que esteja disposto a acabar com a vida de alguém, que acontece.

A ignorância mata. As leis ineficientes e absurdas matam. O machismo mata. 

1. Marcha quer entregar abaixo-assinado pró-Estatuto do Nascituro na quarta-feira
2. Aprovado o Estatuto do Nascituro - Lei 478/07
3. Após legalização, Uruguai não registra morte de mulheres por aborto

sábado, 15 de junho de 2013

Fome e sede de Justiça

 


Diante de tantos problemas que têm ocorrido diariamente em relação ao governo para com a população, principalmente ao que se refere a questão da revolta dos manifestantes devido o aumento do valor das passagens de ônibus, e baseada em questões que eu levantei após umas aulas de Psicologia Social, resolvi postar a respeito da situação em que o governo têm se colocado frente as necessidades de nós cidadãos.


Os movimentos aqui no Brasil tendem a uma luta constante por melhoria na saúde, educação, saneamento básico, a proteção contra a violência doméstica, ao assédio e abuso  sexual, direitos trabalhistas com salários iguais, incluindo ainda todas as formas de discriminação e tantos outros direitos humanos nos quais todos demonstram suas inquietações pelas contradições econômicas e sociais na sociedade brasileira. As manifestações em praças públicas, mensagens via internet,  marchas e tantas outras são formas de ações desses movimentos ¹.

Partindo desse pressuposto, perceba que já houveram muitas lutas ao decorrer de todos esses anos em prol de uma sociedade melhor, embora pareça um clichê, é essa garra dos manifestantes de todas as revoluções, que permitiram que nós enquanto cidadãos, tivéssemos os direitos que temos hoje. Que permitiram que não estivéssemos sendo tratados como animais até hoje, século 21.

Ora! Nós colocamos em todas as eleições, pessoas a frente dos nossos municípios, estados e país, para que possam utilizar e governar de uma melhor forma o nosso patrimônio e lutar pelos nossos direitos, mas infelizmente, o voto que dedicamos para eles, só tem servido de arma para nós mesmos. Nos roubam e esfregam na nossa cara todos os dias naquele impostômetro ² que está localizado na fachada da Associação Comercial de São Paulo ³, valendo ressaltar que o quase 1 Trilhão de reais em impostos é uma quantia que está sendo, de fato, contabilizada, e a quantia que está nos caixa 2 - 3 -... - 10 -... - x, da conta destes políticos? E essa quantia contabilizada está voltada pra qual benefício nosso? Bolsa família e bolsa sei lá das quantas?  Escolas e professores? Hospitais e profissionais? Materiais de trabalho? Laser? Cultura? Bom.. No que eu estou percebendo das condições em que se encontram nosso país, dessa quantia, uma micro-mini parte deve está sendo utilizada pra calar a boca dos conformados, inocentes e desenformados.


O que o governo tem feito com nosso dinheiro? Me vem na memória as reportagens que saem diariamente informando que a reforma dos estádios para a Copa do Mundo em 2016, ultrapassaram do valor esperado há meses. Você acham que quem está financiando essas reformas? EU - VOCÊ - NÓS - VÓS - ELES. Agora lembra aí que tem gente que não gosta de futebol, que não vai ao estádio, que não tem dinheiro pra pagar aluguel, que não tem dinheiro pra colocar comida na mesa, até aqueles que nem sequer tem casa e compram um pãozinho numa vendinha de uma esquina pra não morrer de fome, estão todos financiando essa reforma colossal. Lembra das escolas sem professores, hospitais sem infraestrutura, profissionais e aparelhos médicos, lembra da falta de medicamentos, das ruas sem saneamento básico, das pessoas que dormem pelas calçadas do Maracanã e pelas ruas do país. Agora tirando o foco das necessidades básicas, pensa um pouco: Nós seres humanos, só temos necessidade de comida e água? Você tem fome e sede de quê? Tenta lidar com essa questão de uma forma mais subjetiva, como já dizia a música "Comida" do Titãs
⁴. Do que você precisa além de suprir necessidades básicas? Arte, laser, sexo, relações sociais, tratamentos específicos pra os distúrbios que essa rotina bruta de trabalho proporciona...? Sim? Pois é.. Todos nós precisamos. Quem é pobre e não tem condição de pagar por isso de uma forma mais direta, paga através de imposto pra conseguir esse direito. Agora você me me diz se essas pessoas realmente possuem isso?


Já não basta toda essa má distribuição de renda (e terras - se formos dar atenção aos trabalhadores sem teto ⁵ - e o povo do minha casa, minha vida ⁶ - que mora em dois cômodos com pia e sanitário enfileirados pro nada), ainda aumentam a tarifa das passagens de ônibus (que chegam a aumentar de R$ 1,50 a R$ 3,45 ⁷ ), e querer que todos fiquem calados. Imagina a realidade das pessoas que recebem um salário mínimo, que equivale a R$678,00 ⁸, e utiliza de duas conduções pra ir ao trabalho e duas pra voltar pra casa, todos os dias, durante um mês, pagando R$ 3,45 por passagem, com sua família e a si pra sustentar. Como que essa pessoa vai viver? Ai o governo, representação da "ordem e do progresso do país", libera a polícia contra as pessoas que questão protestando PACIFICAMENTE, e ainda espalha na MÍDIA MANIPULADORA, que os protestantes estavam cometendo vandalismo. Uhum... E o policial que quebrou o vidro da própria viatura ⁹  pra colocar a culpa nos protestantes está super certo, agindo de acordo com a lei! E as pessoas que estavam sendo atacadas simplesmente por passarem no local do protesto, SEM ESTAR PARTICIPANDO, PELOS PRÓPRIOS POLICIAIS ₁₀, que deveriam estar ali pra evitar que algo grava acontecesse, pra ORGANIZAR as pessoas, e não feri-las, atacá-las. É esse agora o papel da PM? Causar terror? E mesmo os os envolvidos no protesto PACÍFICO, por acaso estão fazendo o quê pra serem atacados? Até agora, as ações que estão sendo julgadas de vandalismo, só foram feitas por motivo de defesa, porque os policiais atacaram primeiro. Tornaram ilegal até vinagre, pra evitar que as pessoas se protegessem do efeito do gás lacrimogênio a que estavam sendo expostas, o que acabou por resultar na MARCHA DO VINAGRE ¹² - óbvio! Até isso virou motivo pra gerar violência! Sem contar nas prisões desnecessárias e todas as outras atitudes super legais por parte da PM - Polícia Militar.


Com toda essa manifestação última que ocorreu em SP, os esforços do governo e da polícia, só serviram pra marcar mais um fato histórico no Brasil. Uma manifestação simples, tornou-se a REVOLTA DA SALADA ¹¹ , ou do VINAGRE ¹², como assim está sendo chamada.


Deixo então, uma música, pra que você possa refletir:


Comida - Titãs

Bebida é água! 
Comida é pasto! 
Você tem sede de que? 
Você tem fome de que?... 

A gente não quer só comida 
A gente quer comida diversão e arte 
A gente não quer só comida 
A gente quer saída para qualquer parte... 

A gente não quer só comida 
A gente quer bebida diversão, balé 
A gente não quer só comida 
A gente quer a vida como a vida quer... 


sábado, 13 de abril de 2013

Indicando: "Garapa: 'É verdade'"


Sinopse:
"Garapa é um documentário brasileiro de 2009,dirigido por José Padilha. O documentário tem como  tema a fome no mundo, e teve a sua pré-estréia na 32ª edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. O filme é fruto de mais de 45 horas de material filmado por uma pequena equipe que, durante quatro semanas, acompanhou o cotidiano de três famílias no estado do Ceará em estado de insegurança alimentar grave.
A produção representou o Brasil na categoria documentários no Festival internacional do filme de Berlim de 2009".

Começa, de fato, a partir de (0h:2m:40s)


Contextualizando:
     É impressionante como nós não temos tempo pra ver o sofrimento alheio. Eu, pelo menos, embora veja todos os dias mendigos, meninos em sinais, e famílias inteiras sem moradia, pelos jornais de televisão e pelas ruas da cidade, nunca tomei consciência do que é a pobreza de verdade, do que é ter que viver todos os dias pensando se vai ter comida pra mais tarde ou pra amanhã. Pude perceber que estamos muito distantes disso. Então eu me perguntei: “E como resolver isso? Qual seria a fonte do problema?” Só que na verdade, são tantas as questões, culturais, sociais, políticas e tantas outras, que eu me perco em meio a tanta precariedade.
     Ao decorrer da história relatada sobre as três famílias, me levantavam questões superficiais sobre como eles tão pobres ainda tinham tantos filhos. Sobre os maridos, um que se tinha um dinheirinho a mais hoje, amanhã não trabalhava e seja o que Deus quiser, gastando o pouco que tinha em bebida, o outro que passava o dia capinando o capim que não tinha. Mulheres que sofriam com a agressividade de seus maridos e então, quase que simultaneamente, também saltava um leque de respostas. Não há como não ter filhos se não há prevenção sexual, não há como haver prevenção sexual se não há informação ou acesso aos meios que possam evitar os filhos, não há como guardar dinheiro se eles não têm uma cultura que prega o crescimento pessoal e financeiro, não há como ter acesso à informação se não há educação, e essas famílias não tem nenhuma perspectiva de vida. Estão ali apenas pela sobrevivência. Todas as preocupações se resumiam em o que eles iam comer no final do dia. Com suas condições precaríssimas de saúde, a ausência de saneamento básico e educação, a falta de uma moradia adequada, vivendo da caridade alheia, ou seja, sem as condições básicas que um indivíduo precisa pra viver.
     Angústia é a palavra que define o que eu senti. Passei durante todo o documentário com as mãos frias, suando e estática. Acredito que finalmente eu percebi quais as necessidades que precisam ser trabalhadas na psicologia. Ascendeu uma enorme vontade de ir a campo, de procurar meios pra mudar essa situação, e não somente encontrar esses meios, mais de fazer tudo acontecer.
     O povo tem urgência da ação e não de promessas de mudanças da politicagem e dos profissionais formados que trabalham em clínicas, e em lugares privados esperando que essas pessoas necessitadas vão ate eles, porque isso não vai acontecer. Só de me lembrar do documentário, me dá uma tensão, e a tristeza de ver a realidade tão triste em que essas pessoas vivem. Tristeza essa que não vai acabar no conformismo.

Bibliografia:

Zazen Produções, Downtown Filmes e PETROBRAS. Garapa. Disponível em: <http://www.garapaofilme.com.br/portugues/index.htm> .

UOL Cinema: Metrópolis - José Padilha fala sobre "Garapa". Atualizado em: Abr. 2009. Disponível em: <http://mais.uol.com.br/view/a56q6zv70hwb/metropolis--jose-padilha-fala-sobre-garapa-0402386EDCB99326?types=A&>.

CALIL, Ricardo. Folha de S. Paulo: Filme de José Padilha falha ao analisar a fome no Brasil. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u573561.shtml>.